Amazon suspende venda de livros da editora MacmillanFonte: Valor Econômico
Comércio eletrônico: Amazon suspende venda de livros da editora Macmillan
A Amazon.com iniciou uma batalha, que pode se revelar bastante acirrada, sobre o mercado de livros eletrônicos entre as maiores companhias digitais do mundo, ao suspender vendas diretas de livros da editora americana Macmillan em retaliação por um debate sobre preços.
Numa vitória para as editoras, contudo, a Amazon logo reconheceu sua derrota, com um comunicado ontem dizendo que, \"no fim das contas, teremos de capitular e aceitar os termos da Macmillan porque a Macmillan tem o monopólio sobre seus próprios livros\".
A declaração da Amazon parece encerrar uma rápida sequência de fatos no fim de semana que revelou como ela está levando a sério o desafio da Apple à sua posição de líder no mercado de venda de livros eletrônicos. As idas e vindas são o começo do que se espera ser uma série de escaramuças, à medida que a Amazon, a Apple e possivelmente o Google batalham pelo futuro da publicação e venda de livros digitais.
A suspensão se seguiu à decisão da Macmillan de abraçar o novo aparelho iPad, da Apple, que é concorrente do leitor de livros Kindle, da Amazon. A Macmillan, divisão da alemã Verlagsgruppe Georg von Holtzbrinck GmbH, foi uma de cinco grandes editoras que anunciaram na semana passada que haviam feito contrato para vender livros na nova loja iBook, da Apple. As editoras provavelmente vão pedir os mesmos termos para a Amazon.
Um dia depois do anúncio da Apple, o diretor-presidente da Macmillan, John Sargent, foi a Seattle, onde fica a sede da Amazon, discutir \"novos termos de vendas para livros eletrônicos\" com a companhia, disse ele num comunicado no fim de semana. Quando já havia retornado a Nova York, havia sido informado de que os livros da Mcmillan só seriam vendidos pelo site Amazon.com \"através de terceiros\".
A editora, uma das maiores dos EUA, é mais conhecida no Brasil por seus livros didáticos de inglês, embora no mercado americano também publique obras de ficção e não ficção de grande vendagem. Um livro que ela lançou sábado e que narra um escândalo envolvendo o ex-presidenciável John Edwards, intitulado \"The Politician\", era ontem à tarde o número um na lista de \"best-sellers\" da Barnes & Noble.com, divisão da rede de livrarias Barnes & Nobles, a maior dos EUA.
Nem mesmo esse novo título estava disponível na Amazon, seja como livro ou em versão eletrônica. A Kobo, uma varejista de livros eletrônicos sediada em Toronto, enviou mensagens via Twitter anunciando uma página em seu site chamada \"Can\'t get these on Kindle\", onde listava obras não disponíveis para o aparelho da Amazon. Na lista havia 13 obras da Macmillan.
\"A questão não é a Macmillan. É a Amazon lutando por sua vida com a Apple\", disse Dominique Raccah, editor da Sourcebooks, sediada em Naperville, Estado de Illinois. \"Até agora, a Amazon havia tido um razoável controle sobre o futuro da indústria livreira. Agora um monte de novos aparelhos está chegando, sendo que o mais importante deles é o iPad.\"
Em seu comunicado, a Amazon observou que não acha que \"todas as maiores editoras\" vão seguir os passos da Macmillan. A Amazon também disse que \"sabemos com certeza que muitas editoras independentes e escritores independentes vão ver nisso uma oportunidade para oferecer livros eletrônicos com preços atraentes\".
Um grande editor que fez acordo com a Apple disse que é incerto o que acontecerá nas próximas semanas. \"As negociações só começaram\", disse Brian Murray, diretor-presidente da HarperCollins Publishers, da News Corp. \"Quanto à Macmillan, pode ser um sinal para todas as outras editoras do que pode acontecer se aceitarem o modelo da Apple. Mas não sei se isso é correto.\" A News Corp. também é dona da Dow Jones & Co., editora do \"The Wall Street Journal\".
As editoras Macmillan; Penguin Group, da Pearsons; e Hachette Book Group, da Lagardère, todas envolvidas com a Apple, não quiseram comentar ontem.
As raízes da disputa estão na maneira como os preços dos livros são definidos. A Amazon construiu o maior negócio de livros eletrônicos do mundo vendendo \"best-sellers\" novos por US$ 9,99, enquanto o modelo da Apple requer que as editoras definam seus próprios preços. As editoras não gostam do preço de US$ 9,99 para novos \"best-sellers\" digitais porque temem que os consumidores possam se acostumar com a ideia de que livros novos só valham US$ 9,99, o que destruiria o modelo de negócio delas.
A Amazon agora está diante da perspectiva de as editoras exigirem os mesmos termos que receberam da Apple, que está oferecendo a eles 70% do faturamento com livros a qualquer preço pelo qual consigam vender. Pessoas a par das ações da Amazon, que atingem livros eletrônicos, capas duras e edições de bolso, disseram que a decisão da varejista on-line indica seu descontentamento com a perspectiva de que os preços de livros digitais possam subir nos próximos meses em consequência da entrada da Apple no segmento. Os títulos para o iPad vão ficar entre US$ 12,99 e US$ 14,99, segundo as editoras.
Para complicar, há o Google, que ainda este ano deve lançar sua própria loja de livros digitais, a Google Editions.
\"O futuro dos livros eletrônicos, o futuro do controle das editoras sobre seu próprio destino, e o futuro dos preços de varejo, está sendo forjado bem diante dos nossos olhos\", disse Richard Curtis, um agente literário e editor de livros eletrônicos de Nova York.
Uma escritora disse que estava decepcionada com a decisão da Amazon. \"É um tanto preocupante, porque eu me sinto como uma vítima inocente pega num fogo cruzado de uma guerra comercial\", disse Heidi Betts, cujo novo romance, \"Knock me for a loop\", deve ser lançado esta semana pela Macmillan. \"A Amazon é um lugar aonde um monte de gente vai, mesmo quando estão só procurando informação sobre o livro.\"
Uma questão importante para consumidores é que o Kindle e seus livros eletrônicos são exclusivos, de modo que os leitores não podem facilmente comprar os títulos em outros lugares e pôr no Kindle. Doug Miller, um consultor de informática de 45 anos de Indianápolis, tem dois Kindles e dezenas de livros eletrônicos da Amazon, mas ficou tão frustrado com a retirada dos livros da Macmillan que suspendeu suas compras de títulos digitais para os aparelhos. \"Tenho de abandonar o Kindle enquanto é tempo. É um custo fixo irrecuperável para mim agora\", disse ele.
Bonnie Sue Cahill, uma americana que mora em Vicenza, Itália, e que comprou quase cem livros para o seu Kindle, disse que a Amazon e a Macmillan estão \"prejudicando seus consumidores\".
Ainda assim, a mulher de 31 anos não tem muita simpatia pela ideia de que os livros eletrônicos deveriam ser mais caros. \"Você vai ter muita dificuldade para me convencer de que há muitos custos para produzir um livro eletrônico. Tudo o que você tem de fazer é formatar e pôr on-line. Não vejo como isso possa valer US$ 15\", disse.


