Blog do Carvalho

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE DEZEMBRO DE 2009

      Você conhece o bar Dometila, em Porto Alegre? Recomendo. Faz pouco que o inseri entre meus locais  preferidos de frequentar. Embora já tenha quatro anos de existência, e estar incrustado no coração do bairro onde resido, somente no mês passado tive o prazer de conhecê-lo.  

      O lugar é único: pelo ambiente e pelo dono. Recostado sobre uma das arestas viárias da charmosa Praça Maurício Cardoso, o Dometila bem poderia estar em Paris, Londres ou mesmo Amsterdã, tal o astral e decoração que o compõem. Descolado e bucólico, o lugar é perfeito para um happy–hour, especialmente se o fim de tarde brindar Porto Alegre com um pôr-do-sol característico, temperado com uma leve brisa soprada por árvores centenárias que adornam a praça em frente. Ah, e o preço é bem adequado, menor do que a grande maioria dos bares com o seu perfil.

 

      Porém, o Dometila fica ainda mais Dometila quando você percebe a presença do seu dono. Impossível não perceber. Mal você escolhe uma mesa e menciona a intenção de ali permanecer, e pronto! Uma chuva literal de pétalas de rosa derrama a simpatia, a cortesia e a amabilidade do dono sobre você. Um gesto tão carinhoso como inaudito, onde mais do que expressar boas-vindas, revela o lado afetuoso, irreverente e divertido do Claiton, o dono do Dometila.

 

      Dias desses estava lá, de novo. Fui com a Mirela, minha esposa, e a minha sogra. É verdade,! O lugar é tão agradável que até a sogra a gente faz questão de levar (risos). Lá, entre generosas mordidas dadas no saboroso e caseiro sanduíche de carne de panela, permeadas por goles de cerveja artesanal servidas em temperatura próxima a zero, observava atento a rotina do Claiton no atendimento aos seus clientes.

 

      Na verdade, era mais do que atendimento, chegava a ser um “cortejamento”. Atencioso, empático e criativo, ele transitava entre as mesas sem economizar sorrisos ou gestos gentis. Solícito e disponível, o dono Claiton, invariavelmente, permutava funções com o garçom, com a cozinheira, tudo dentro de uma harmonia operacional, onde todos se esmeravam em gerar valor ao cliente.

 

      Saí do Dometila, algumas horas depois, com a percepção plena de ver naquele local a realidade inconteste de uma empresa realmente voltada para o mercado. Uma estrutura integrada, onde os seus elementos constituintes – dono, atendentes, garçons e cozinheiros, independente das suas atribuições originais, trabalham para um único objetivo: encantar o seu cliente. 

 

      O exemplo extraído do Dometila, um pequeno bar entre tantos que habitam em Porto Alegre, pode ser adaptado a qualquer empresa, seja ela grande, média ou pequena. O conceito é simples: somos todos vendedores do nosso produto, da nossa imagem, do nosso trabalho. A lição, mais simples ainda: em um mundo cada vez mais igual e competitivo, vencerão as empresas que encantarem mais os seus clientes.

 

      E para isso, muito além de produtos e preços, faz-se fundamental uma organização sem fronteiras, integrada e proativa, onde todos trabalhem com a visão clara de que o amanhã somente existirá se ainda tivermos clientes para atendê-los em suas necessidades, despertar os seus desejos e, sobretudo, superar as suas expectativas.  

       Carlos Alberto Carvalho Filho






TERÇA-FEIRA, 09 DE DEZEMBRO DE 2008

      Na semana passada ultimei com o Maurício Machado, diretor geral e publisher da Editora Integrare, o acerto para a publicação do meu novo livro, A CEREJA DO BOLO, cujo lançamento está definido para o primeiro semestre de 2009.

 

      Registrando a minha satisfação pelo fato e, sobretudo, feliz pela mantença da parceria exitosa com a Integrare, deixo postado, em absoluta exclusividade para os leitores deste blog, o capítulo introdutório do novo livro. Nele, você poderá conhecer, em primeira mão, a linha temática que será desenvolvida nos capítulos posteriores. Espero que você goste deste pequeno trailer editorial.

     Fique à vontade para, desejando ao final desta leitura, postar a sua opinião no espaço destinado a comentários.

 

        A CEREJA DO BOLO

        Introdução

 

       Em meio ao emaranhado de pessoas que se comprimiam nos amplos espaços de uma grande livraria em Porto Alegre – porém insuficientes para abrigar as mais de 600 pessoas que prestigiavam o lançamento do meu primeiro livro  –  o amigo fraterno e um dos grandes incentivadores deste meu projeto pessoal de enveredar pelo caminho editorial, Flávio do Couto e Silva, chega próximo a mim e brada em entusiasmo que contagia aqueles que emolduravam a mesa onde, por mais de cinco horas ininterruptas, autografei o A AZEITONA DA EMPADA:

      - “Que loucura! Não cabe mais ninguém! Vá preparando o segundo, pois este já nasceu iluminado. Vai acabar virando auto-ajuda!”

      O Flávio, um brilhante advogado gaúcho, é uma daquelas pessoas com quem todos adorariam conviver. Intenso e vibrante, ele tem na lealdade incondicional à amizade um dos seus predicados mais salientes. Magnânimo nos sentimentos e altruísta nas atitudes, ele é aquilo que podemos chamar de “um cara do bem”. Assim, absorvi aquela sua frase como mais um ímpeto vocabular de amigo emocionado com o surpreendente afluxo de pessoas ao lançamento de um livro concebido originalmente como de conteúdo técnico. Afinal, nos dias atuais, é quase uma consciência coletiva de que livros com este perfil atraem públicos mais específicos e reduzidos do que os de publicações alicerçadas em temas mais universais e populares, como os livros de esoterismo ou os ditos de auto-ajuda. A frase do Flávio soou como elogio, mesmo que não entenda ser axioma indesmentível a prevalência de aceitação popular de um estilo literário sobre o outro.

      Na realidade, no Brasil, o termo auto-ajuda tem uma conotação deturpada, sendo sinônimo para produções literárias motivacionais e de reduzida consistência acadêmica. Uma contradição ao verdadeiro sentido da expressão, pois, tudo o que possibilite o desenvolvimento e aperfeiçoamento pessoal, em resumo, deveria ser classificado como de auto-ajuda. Mas o rótulo existe e, sejamos sensatos, o sentido usado no apelido está arraigado e muito difícil de modificar-se no curto prazo.

      O rápido sucesso alcançado pelo AZEITONA, no entanto, confesso ter superado, inclusive, o melhor dos meus imaginários. Em apenas um mês de mercado o livro já entrara na sua terceira edição. Os convites para entrevistas sobre o livro se sucederam em diversas localidades do país e o número de palestras – atividade que desempenho, profissionalmente, desde 2004 – multiplicou-se a razões sem precedentes no meu currículo de apresentações. 

      Um fato logo chamou a atenção de analistas editoriais um pouco mais atentos: o que faria de um livro pretensamente técnico, despertar interesse acentuado em públicos tão diversos? 

      É cartesiano pensar que a tecnicidade do conteúdo referente ao tema “vendas e negociação”, em tese, é um assunto mais aplicável no cotidiano das pessoas e conceitualmente mais assimilável à leitura. Porém, mesmo com essa atenuante, a lógica explicativa deveria ter a sua sustentação em bases mais profundas do que a simples facilidade de aderência do tema ao leitor.

      A senha para a descoberta da verdadeira razão do sucesso do AZEITONA viria, porém, na véspera da segunda sessão de autógrafo, desta vez, realizada em São Paulo, poucos dias após a primeira, em Porto Alegre. Convidado que fora para falar em programa noturno de rádio de uma tradicional emissora brasileira compareci à entrevista onde poderia fazer a divulgação do livro que seria autografado no dia seguinte e, caso concordasse, responderia perguntas de ouvintes que, porventura, desejassem interagir comigo ao vivo. Prontamente aceitei, afinal, era quase um sonho para um autor iniciante ter uma oportunidade ímpar, como essa oferecida, para difundir o livro nacionalmente, haja vista, o programa que participaria ser veiculado em rede de emissoras alocadas em vários estados brasileiros. 

      Cheguei à emissora com antecedência de quase uma hora e, entre um misto de ansiedade e preocupação, aguardei ser chamado para entrar no ar. A tensão externada fazia sentido. Ocorre que, embora tenha boa experiência em falar para grandes públicos em minhas palestras, a realidade de conceder entrevistas – e ao vivo – era muito recente ao meu universo existencial e, como tudo na vida, a falta de vivência em algo torna-nos apreensivos até que saibamos como administrá-lo. 

      Entrei no ar, exatamente, às 23 horas e, depois de uma breve apresentação sobre o livro e o meu currículo, o locutor me introduziu à conversa pedindo-me que fizesse uma primeira explanação sobre o AZEITONA. Iniciei contextualizando o livro, explicando tratar-se de uma publicação com foco em negociação e vendas, onde em 225 páginas eu entremeava modernos fundamentos extraídos de acurada investigação acadêmica sobre o tema com a minha experiência prática de vinte anos como executivo na área comercial. O nome do livro, de certa forma sui generiis para o assunto, fora extraído de um dito popular para expressar  “pequenos detalhes capazes de fazer grandes diferenças” e retrata a condição de criar diferenciais competitivos sustentáveis em um processo de negociação. A conversa corria solta e eu, a cada frase proferida, sentia-me mais a vontade e entusiasmado a seguir em frente, pormenorizando o conteúdo do livro e seus aplicativos práticos, seja na atividade profissional de um vendedor, seja no dia a dia comum de cada pessoa e a nossa permanente necessidade de sempre estarmos negociando alguma coisa com alguém.

      O locutor atento obtemperava a minha dissertação, intercalando-a com perguntas que iam me propiciando discorrer com maior profundidade sobre a fascinante arte de negociar e seus derivativos práticos.

      Exposto o lado técnico do livro, permiti-me abordar o que para mim era o grande diferencial do AZEITONA em comparação a outros do seu segmento: o lado emocional advindo da inserção de uma história marcada por uma dificuldade pessoal contraída na tenra idade e que servira de marco para a construção de uma  trajetória de luta, de superação e de conquistas sucessivas.

      Completamente envolvido pelo inusitado momento de poder falar sobre o assunto, fui descrevendo em minúcias detalhes dessa história. Empurrado pela sensação de ter milhares de ouvintes – em suas casas, automóveis ou qualquer outro lugar onde a portabilidade do rádio permitisse – compartilhando comigo daquele momento, libertei-me da racionalização argumentativa e deixei que a emoção desnudasse o meu interior, oferecendo-lhes a possibilidade de conhecer a minha história de vida transcrita nas primeiras páginas do livro A Azeitona da Empada.

      Passados mais de quarenta minutos de entrevista, o locutor propôs-me que abríssemos o microfone para os ouvintes, deixando-os à vontade para  formularem perguntas. Imediatamente aceitei, curioso em saber o que viria e, sobretudo, poder sentir, mesmo que auditivamente, o grau de interesse das pessoas ao meu livro.

      A primeira interação veio de São Paulo, morador do bairro de Moema, onde uma mulher de voz madura, com um português irrepreensível e muito bem articulada, cumprimentou-me pelo conteúdo abordado no livro e, especialmente, pela minha força de vontade demonstrada na história de vida relatada. Disse-me que não queria fazer pergunta, apenas parabenizar-me e saber onde seria a sessão de autógrafos, pois gostaria de adquirir um exemplar do AZEITONA e colher a minha assinatura no local. Agradeci a amabilidade das colocações e, prontamente, fiz-lhe um convite especial para comparecer ao evento de lançamento em São Paulo.

      A partir desta ligação outras foram se sucedendo, oriundas dos vários quadrantes do Brasil, deixando-me perplexo e incrédulo àquela realidade diante da imensidão territorial que percebi o meu livro em minutos percorrer. Em todas as ligações comecei a observar um fio condutor a permear todas as considerações. Não obstante houvesse algumas referências elogiosas ao conteúdo abordado no livro, era sobre o lastro emocional deixado pela minha história pessoal contada no transcorrer da entrevista que os ouvintes mais queriam comentar, aprofundar detalhes e expressar curiosidade, solidariedade e até admiração.

       - “ Meu filho, eu queria dizer que a tua história vai servir de motivação para muitas outras pessoas...” expressava uma senhora – pelo menos a voz assim demonstrava –  ligando de Goiânia. “A energia de vida que você transmite na sua fala faz a gente pensar que tudo é possível”, argumentava um ex-executivo de vendas, hoje aposentado e morador da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Enfim, telefonemas atrás de outros rompiam a restrição física das ondas sonoras, invadindo o meu corpo, penetrando na minha mente, estraçalhando o meu coração e, literalmente, tomavam conta do meu ser.

      A entrevista já passava frouxo de uma hora de duração quando entra uma ligação de Campinas, interior de São Paulo, e uma doce voz feminina do outro lado da linha começa a falar:

       - “ Boa noite, Carlos Alberto. Eu quero cumprimentá-lo por esta noite que você está proporcionando a todos nós que o estamos ouvindo. Eu quero dizer a você que, hoje,  descobri também poder ser uma azeitona e fazer a diferença. Eu sou deficiente visual e, apesar de não enxergar, escutando você agora, sei que tenho condições de exercer com muita qualidade inúmeras atividades, aproveitando virtudes que sei que tenho em níveis superiores às outras pessoas...”   

       Enquanto a ouvinte discorria sobre a força interior nela despertada, os meus olhos marejavam, a respiração antes pausada e tranqüila cedia lugar a um ofegante inspirar, como se eu tivesse corrido – e vencido – uma maratona inteira no altiplano da cidade de La Paz.

       Concluída a ligação da ouvinte de Campinas, solicitei com um gesto conclusivo ao locutor que encerrássemos a entrevista. Não dava mais para prosseguir.  Havia sucumbido à emoção.

       Sem muitas condições para despedir-me dos ouvintes, fiz um breve agradecimento a todos, reiterei a alegria daquele momento e finalizei com um boa noite cheio de sentimento de gratidão divina por proporcionar-me minutos inesquecíveis como aqueles experimentados naquela noite. 

       Voltando para o hotel, madrugada fria paulistana, retroalimentando a experiência vivida, lembrei-me do amigo Flávio Couto e Silva e sua profética frase:

        - “Que loucura! Este livro já nasceu iluminado. Vai acabar virando auto-ajuda!” 

       Não tive mais dúvidas. Os depoimentos dos ouvintes – especialmente o derradeiro – combinado com a percepção sensorial extraída daquela incontável quantidade de pessoas no lançamento de Porto Alegre, era a base explicativa para o sucesso do Azeitona da Empada:  apesar da concepção inicial ter sido a da produção de um livro para a categoria de administração e negócios, na prática, ele aliou ao seu contexto um forte componente emocional, revelando-se um híbrido entre o técnico e o motivacional. 

       Encontrei o Flávio alguns dias depois e relatei a ele o fato acontecido na entrevista na rádio, em São Paulo. Ele escutou com atenção e disparou outra frase com o seu indisfarçável senso místico:

       - “Beto, talvez não tenhas percebido, mas o “fator emoção” contido ao longo de toda a exposição do” azeitona” é a “cereja do bolo” do teu livro

       Que espetáculo! O cara além de brilhante advogado ainda é mercadológico! Simplesmente, nas entrelinhas das suas colocações, descobri o título do segundo livro, conseqüência que ele, premonitoriamente, já havia me alertado no dia do lançamento do primeiro. Enfocar a força do fator emoção em processos de relacionamento e persuasão humana, mais do que fazer sentido com o título descortinado, pareceu-me um tema fascinante a ser explorado nesta segunda obra.  

       O fator emoção do livro A Azeitona da Empada, referido pelo Flávio, está  transcrição em riquezas de detalhes por quase 20 páginas, relatando o infortúnio pessoal acontecido na tenra idade e as trágicas conseqüências dele advindas, transformando a minha história de vida numa trajetória permanente de superação e reinvenção pessoal. Assim, para aqueles que ainda não experimentaram a sua leitura e reavivando a memória dos que já a fizeram, faço um breve resumo do chamado fator emoção do meu primeiro livro.

      Eu tinha cinco anos de idade. Era em uma noite úmida de agosto, típica do inverno gaúcho, e chegava em casa no automóvel dirigido por meu pai. Sonolento pelo adiantado da hora, sentado no banco traseiro, eu o acompanhava manobrar o veículo à entrada da garagem para, uma vez posicionado adequadamente, sair do carro e abrir manualmente o portão da garagem.

      Sentado na parte de trás, espremido e apoiado entre os bancos dianteiros, fiquei no carro, aguardando o meu pai cumprir o ritual de abertura do portão, quando, surpreendentemente, adentra o fusca verde-água uma figura que nunca mais saiu da minha memória: com gorro de lã listrado, casaco de couro e cachecol, senta-se ao volante, fecha a porta, dá marcha à ré, arranca o veículo bruscamente, acelerando comigo dentro, tornando-me protagonista involuntário de um seqüestro relâmpago, modalidade de violência infelizmente tão comum nos dias de hoje, porém absolutamente insólita e cruel no final da década de 60.

       Fácil imaginar o trauma que se apodera um menino de cinco anos passando por uma situação daquelas. Difícil, contudo, seria prever as conseqüências. Graças a Deus, o desfecho me colocou são e salvo ao convívio dos meus pais, irmãos e amigos. Exceção feita a um pequeno problema – se é que poderia chamar de pequeno algo que veio marcar para sempre a minha vida. Ocorre que, até aquele dia, eu era uma criança extrovertida, positiva e com ampla fluência verbal. Passado o trauma, fui tomado por uma “gagueira” aguda que, desde a infância, tornou-se uma marca indelével nos anos seguintes.

       O menino falante cedeu lugar a um adolescente gago que, a cada dia, experimentava situações tragicômicas, por vezes humilhantes e quase sempre constrangedoras. A falta de confiança pessoal e o medo à exposição oral levaram-me a escolher caminhos profissionais obtusos e frustrantes. Assim, formei-me engenheiro civil pelo simples fato de que, nesta profissão, pouco ou nada precisaria falar, pelo menos, assim concebia o meu imaginário cartesiano e pragmático, procurando estratificar as profissões na dualidade simplista das ciências exatas e humanas.

       Mas o fato de diplomar-me em engenharia, em nada me assegurou exercer o ofício como profissão eterna. Ao contrário, vi na incongruência entre o perfil da formação acadêmica alicerçada na frieza dos números e o da vocação pessoal, notoriamente voltada ao exercício do relacionamento humano, o elemento moto-propulsor à prática do autoconhecimento, atributo fundamental para quem deseja vencer e, sobretudo, ser feliz.

       Conhecendo os meus pontos fortes e fracos, pude discernir caminhos e buscar na diferenciação pessoal a chave para a superação e, acima de tudo, a base para as minhas conquistas.  Ciente das minhas aptidões, e consciente das minhas inabilidades, concentrei-me em desenvolver aquilo que gostava, que sentia prazer e onde funcionava melhor. Assim, recém diplomado, mesmo gago, decidi abandonar a profissão de engenheiro para enveredar no mundo das ciências humanas, escolhendo a atividade de “vendedor de copiadoras” como o marco inicial de uma grande virada na minha vida.

       Não deu outra! Ancorado no desenvolvimento da capacidade  autoconhecimento, apostei tudo nos meus pontos fortes da minha personalidade, minimizando assim os meus pontos fracos. O outrora engenheiro frustrado,  ensimesmado nas suas atitudes e claudicante nas duas decisões, deu lugar a um vendedor efusivo, radiante nas suas ações, firme nas suas convicções e apaixonado por tudo que fazia. Daí à ascensão profissional foi questão de tempo e perseverança.  

       A gagueira, é importante ressaltar, ainda adorna, eventualmente, uma ou outra frase, como uma marca pessoal que, confesso, hoje não desejo mais perder. Afinal, ela se tornou ícone da minha luta, referência maior dos meus propósitos e, por que não dizer, gerou até um valor agregado à minha imagem.

      Hoje, olhando a vida pelo retrovisor, posso assegurar que, se exercesse a engenharia, na prática, seria um profissional mediano, nada mais do que isso. E o que é pior: alcançaria este rótulo de engenheiro medíocre por meio de um grande esforço pessoal, por estar violentando a minha vocação. Do contrário, ao apostar nos meus pontos que entendia fortes, mesmo tendo que superar as dificuldades inerentes da gagueira, fiz-me um vendedor de sucesso, um executivo respeitado, um palestrante requisitado e, acima de tudo, tornei-me uma pessoa feliz.

       E conseguir vencer, crescer e ser feliz, mesmo aos olhos de uma leitura mais superficial, é a síntese do fator emoção do livro A Azeitona da Empada. A emoção transcrita no prazer indescritível de poder me desenvolver naquilo que mais gostava, no que sabia e queria fazer. A emoção da superação, da realização e da constatação de que nada é capaz de obstaculizar a estrada da vocação, principalmente, quando este caminho é conduzido pela força interior e o pulsar sangüíneo do coração. Emoção capaz de despertar, nos outros, reações das mais imprevisíveis e inusitadas, como aquela contida nas frases doces e inesquecíveis da querida ouvinte campineira.   

       Moral da história: desde o referido diálogo com o amigo Flávio do Couto e Silva, a Cereja do Bolo passou a ser uma constante no meu imaginário. A sua materialização veio com a composição construtiva do que denominei o “Bolo do Sim”, uma figura de linguagem – um gosto pessoal utilizado para estruturações conceituais – que estabelece uma reunião de ingredientes que julgo essenciais à persuasão humana e, por conseqüência, à construção de uma lógica natural a todos os negociadores que pretendam atingir os seus objetivos, conquistando o coração, a mente e, especialmente, o sim do seu interlocutor.   

        No entanto, devo reconhecer – e externar – que a concepção estratégica deste livro tem um objetivo primal: o de ser uma adaptação do A Azeitona da Empada para um universo de leitores que transcendam àqueles mais aderentes ao ambiente da negociação comercial. Um livro conceitualmente mais amplo na formatação do seu público-alvo. Um livro que possa ser útil para as incontáveis negociações da vida, como sugeriu diversas vezes o amigo Flávio Couto e Silva, motivado pela efervescência repercussiva no lançamento do Azeitona.        

       Espero conseguir este meu intento, especialmente se, de uma alguma forma, o conteúdo que estará expresso no novo livro vier ajudar você a obter inúmeros sim ao longo da sua vida.    

Carlos Alberto Carvalho Filho 

 





QUARTA-FEIRA, 01 DE OUTUBRO DE 2008

      A vida é repleta de situações perigosas. Mas, talvez, nenhuma delas seja tão presente e permanente como a do ato de comunicar. Seja oral, escrita ou não–verbal, comunicar também é estar sempre pisando em ovos. Uma frase mal-colocada ou uma simples palavra mal-interpretada, pode dar margem a desdobramentos inimagináveis e, não raras vezes, desencadeadores de efeitos nocivamente definitivos para que as emite.  

 

      Veja o caso recente do último clássico Grenal. Em tempo: para os não-gaúchos ou desinteressados sobre o futebol, o Grenal – o confronto entre as duas maiores equipes do estado do Rio Grande do Sul – carinhosamente apelidado de a Festa Brava dos Gaúchos,  é um fato que mexe, simultaneamente, com o sentimento de, pelo menos, 10 milhões de pessoas. Pois no domingo, dia 28 de setembro, houve mais uma partida envolvendo o Grêmio e o Internacional. O resultado foi surpreendente, tratando-se esta ser uma disputa sempre tão acirrada: vitória do Internacional por humilhantes quatro a um.  

     Terminado o clássico, ainda sob os efeitos do espocar tonitruante dos foguetes vitoriosos, começaram a ser extravasadas as reações de alegria, euforia e, no caso dos perdedores, de tristeza e indignação. E nesse ambiente, um dos mais emblemáticos substratos pós-confronto, a flauta  entre os torcedores, ganhou ares e criatividade especiais. Porém, o curioso foi que de nove, entre dez, elementos motivadores da flauta, estava a alusão à palavra galácticos, termo utilizado pelo presidente do Grêmio, Paulo Odone Araújo Ribeiro, dois dias antes do clássicos, como forma de identificar a qualificação dos jogadores do Internacional.   

     A palavra, assim, solta, pouca ou quase nenhuma efervescência possui para gerar tamanha repercussão. No entanto, dita em um contexto específico, foi capaz de tornar-se nitroglicerina vocabular aos ouvidos adversários. O presidente Paulo Odone, talvez desatento aos efeitos que esta simples palavra poderia causar, ao dar entrevistas para meios de comunicação locais, usou a frase “vamos tentar passar a máquina nos galácticos”  para definir a intenção do Grêmio ante o confronto com o rival.    

    Pronto! Foi o que bastou para esta frase e, especialmente, a pejorativa interpretação dada à palavra galáctico – subjetivamente traduzida por ironia e soberba gremista – para que o circo estivesse armado e o acirramento comportamental entre as torcidas, dirigentes e jogadores, fosse fomentado a limiares elevados.   

    Pobre presidente Odone! Teve que ouvir – e nós gremistas mais ainda – as maiores gozações e construções criativas sobre os galácticos. Eu mesmo, claramente identificado como um ativo torcedor gremista, fui alvo de um sem número de e-mails, telefonemas ou SMS, disparados a mancheias, advindos de todos os quadrantes nacionais, entupindo a minha caixa eletrônica, esvaziando a capacidade de armazenamento do celular e, especialmente, estourando os meus tímpanos de irritação à flauta colorada.    

    Acho que nunca a palavra galácticos recebeu tamanha atenção e desdobramentos. Contudo, também, poucas vezes ela esteve inserida em um contexto tão polêmico, explosivo e emocional. 

    O aproveitamento do contexto serviu, também, para um e-mail criativo e bem-humorado de um torcedor do Internacional, um colorado fanático, cujo conteúdo continha a introdução:     

      Caro Beto. Achei interessante o tema para você que trabalha com a escrita!!!      

      Saudações, 4ndre

      Em seguida, atachado ao e-mail, seguia a seguinte mensagem:       

        Hoje será assinada a reforma ortográfica da língua portuguesa,      

        Portanto,  prestem atenção:      

        O "c" mudo que os portugueses usavam não mais será utilizado, por exemplo:O certo é GALÁTICOS e não GALÁCTICOS.   

      Por fim, ainda pegou uma carona na crise financeira americana e complementou:     

      A última é ligada à crise do setor financeiro americano.Em vez de usar o cifrão $$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$, que é expressão do problema financeiro, sugerimos usar a mesma tecla, porém na minúscula e tudo se resolve, vejam só:          44444444444444444444444444444444444444444           

      Não tive outra saída a não ser assimilar a flauta criativa e inteligente, não sem antes dar a minha educada resposta: 

        Caro Amigo André

 

          Agradeço o envio da mensagem. A flauta dos "quatro" é válida e aproveito para construir um outro desdobramento deste número cabalístico: o Inter, mesmo ganhando de quatro, não vai chegar entre os quatro; e o Grêmio, ao final, mesmo caindo de quatro, será o melhor dos quatro!

 

           Cumprimentos pela vitória e, em dezembro, espero você na av. Goethe para comermorarmos o TRI-CAMPEONATO. Ah!, por falar em nova ortografia, para o ano que vem, o nosso TETRACAMPEONATO será sem hífen, ok?    

          Grande abraço, Beto.                 

        Conclusão: na comunicação, a utilização do contexto pode fazer toda a diferença.    





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