Blog do Carvalho

QUARTA-FEIRA, 01 DE OUTUBRO DE 2008

      A vida é repleta de situações perigosas. Mas, talvez, nenhuma delas seja tão presente e permanente como a do ato de comunicar. Seja oral, escrita ou não–verbal, comunicar também é estar sempre pisando em ovos. Uma frase mal-colocada ou uma simples palavra mal-interpretada, pode dar margem a desdobramentos inimagináveis e, não raras vezes, desencadeadores de efeitos nocivamente definitivos para que as emite.  

 

      Veja o caso recente do último clássico Grenal. Em tempo: para os não-gaúchos ou desinteressados sobre o futebol, o Grenal – o confronto entre as duas maiores equipes do estado do Rio Grande do Sul – carinhosamente apelidado de a Festa Brava dos Gaúchos,  é um fato que mexe, simultaneamente, com o sentimento de, pelo menos, 10 milhões de pessoas. Pois no domingo, dia 28 de setembro, houve mais uma partida envolvendo o Grêmio e o Internacional. O resultado foi surpreendente, tratando-se esta ser uma disputa sempre tão acirrada: vitória do Internacional por humilhantes quatro a um.  

     Terminado o clássico, ainda sob os efeitos do espocar tonitruante dos foguetes vitoriosos, começaram a ser extravasadas as reações de alegria, euforia e, no caso dos perdedores, de tristeza e indignação. E nesse ambiente, um dos mais emblemáticos substratos pós-confronto, a flauta  entre os torcedores, ganhou ares e criatividade especiais. Porém, o curioso foi que de nove, entre dez, elementos motivadores da flauta, estava a alusão à palavra galácticos, termo utilizado pelo presidente do Grêmio, Paulo Odone Araújo Ribeiro, dois dias antes do clássicos, como forma de identificar a qualificação dos jogadores do Internacional.   

     A palavra, assim, solta, pouca ou quase nenhuma efervescência possui para gerar tamanha repercussão. No entanto, dita em um contexto específico, foi capaz de tornar-se nitroglicerina vocabular aos ouvidos adversários. O presidente Paulo Odone, talvez desatento aos efeitos que esta simples palavra poderia causar, ao dar entrevistas para meios de comunicação locais, usou a frase “vamos tentar passar a máquina nos galácticos”  para definir a intenção do Grêmio ante o confronto com o rival.    

    Pronto! Foi o que bastou para esta frase e, especialmente, a pejorativa interpretação dada à palavra galáctico – subjetivamente traduzida por ironia e soberba gremista – para que o circo estivesse armado e o acirramento comportamental entre as torcidas, dirigentes e jogadores, fosse fomentado a limiares elevados.   

    Pobre presidente Odone! Teve que ouvir – e nós gremistas mais ainda – as maiores gozações e construções criativas sobre os galácticos. Eu mesmo, claramente identificado como um ativo torcedor gremista, fui alvo de um sem número de e-mails, telefonemas ou SMS, disparados a mancheias, advindos de todos os quadrantes nacionais, entupindo a minha caixa eletrônica, esvaziando a capacidade de armazenamento do celular e, especialmente, estourando os meus tímpanos de irritação à flauta colorada.    

    Acho que nunca a palavra galácticos recebeu tamanha atenção e desdobramentos. Contudo, também, poucas vezes ela esteve inserida em um contexto tão polêmico, explosivo e emocional. 

    O aproveitamento do contexto serviu, também, para um e-mail criativo e bem-humorado de um torcedor do Internacional, um colorado fanático, cujo conteúdo continha a introdução:     

      Caro Beto. Achei interessante o tema para você que trabalha com a escrita!!!      

      Saudações, 4ndre

      Em seguida, atachado ao e-mail, seguia a seguinte mensagem:       

        Hoje será assinada a reforma ortográfica da língua portuguesa,      

        Portanto,  prestem atenção:      

        O "c" mudo que os portugueses usavam não mais será utilizado, por exemplo:O certo é GALÁTICOS e não GALÁCTICOS.   

      Por fim, ainda pegou uma carona na crise financeira americana e complementou:     

      A última é ligada à crise do setor financeiro americano.Em vez de usar o cifrão $$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$$, que é expressão do problema financeiro, sugerimos usar a mesma tecla, porém na minúscula e tudo se resolve, vejam só:          44444444444444444444444444444444444444444           

      Não tive outra saída a não ser assimilar a flauta criativa e inteligente, não sem antes dar a minha educada resposta: 

        Caro Amigo André

 

          Agradeço o envio da mensagem. A flauta dos "quatro" é válida e aproveito para construir um outro desdobramento deste número cabalístico: o Inter, mesmo ganhando de quatro, não vai chegar entre os quatro; e o Grêmio, ao final, mesmo caindo de quatro, será o melhor dos quatro!

 

           Cumprimentos pela vitória e, em dezembro, espero você na av. Goethe para comermorarmos o TRI-CAMPEONATO. Ah!, por falar em nova ortografia, para o ano que vem, o nosso TETRACAMPEONATO será sem hífen, ok?    

          Grande abraço, Beto.                 

        Conclusão: na comunicação, a utilização do contexto pode fazer toda a diferença.    








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