Pense rápido: você poderia me definir o que é ter objetividade?
Se formos consultar o Aurélio, veremos tratar-se da capacidade de ser objetivo. E objetivo, segundo a mesma fonte de consulta, seria o valor final para o qual convergem progressivamente os resultados das sucessivas interações. Mas, se ser objetivo é uma resultante da convergência de sucessivas interações, porque muitas pessoas têm a insistência em querer rotular de objetivo apenas àqueles de perfil comportamental do tipo curto e grosso?
Percebo esta incongruência, permanentemente, em conversas pessoais ou profissionais, onde invariavelmente uma pessoa melhor arquitetada oralmente, não raras vezes, é definida como prolixa ou pouco objetiva. E mais: quase sempre o tom alocado nesta caracterização possui nuanças de teor pejorativo. Não concordo com este maniqueísmo e entendo que, na realidade, tudo é uma questão de enfoque analítico.
Quando ainda estudante de engenharia civil, tinha indelével comigo um dos princípios pétreos da geometria, que expressa ser a distância mais curta entre dois pontos sempre uma reta. Nada mais correto para quem estava submerso ao estrito universo das ciências exatas. Porém, ao enveredar pelo mundo das vendas e, especialmente, no exercício da interação humana, cada dia mais constato que, no relacionamento e na comunicação interpessoal, quase sempre, a distância mais curta entre dois pontos é uma curva. Nada mais lógico para o que, na essência, é conseqüência de sucessivas interações e, certamente, a convergências de muitas incongruências.
Por isso, prefiro interpretar que ter objetividade, significa alcançar o objetivo. E para isso, em se tratando de relações humanas, a distância mais curta vai depender das inúmeras variáveis existentes no contexto relacional, o que, muitas vezes, leva-nos a percorrer mais curvas do que a famosa e sinuosa Estrada de Santos.
Beto Carvalho
Almoçava dia desses com dois fraternos amigos, Mathias Renner e Flávio do Couto e Silva. Ambos destacados profissionais em suas áreas de atuação: Mathias, no segmento financeiro; Flávio, no ramo advocatício. A conversa tergiversava sobre as diversas formas de adotar argumentações persuasivas em processos de negociação. Assim, entre lentas e saborosas garfadas no filé flambado guarnecido por finíssimas batatas fritas e purê de mandioquinha, discorríamos sobre como melhor abordar o interlocutor diante de múltiplas circunstâncias negociais.
Conversa vai, conversa vem, foi quando o Mathias coloca à mesa um viés interessante que, prontamente, chamou-me a atenção. Disse ele, “a força da argumentação persuasiva vem da convicção que é colocada no discurso proferido”. E mais, continuou elevando a voz em tom enfático e semi-baritonal, “a consistência da convicção expressa é diretamente proporcional à emoção empregada na comunicação do emissor”.
Imediatamente, lembrei-me do novo livro que estou escrevendo, cujo título será A Cereja do Bolo, onde trato o fator emoção como elemento de desequilíbrio em processos de negociação interpessoal. A conceituação do Mathias sobre a importância da emoção no contexto da formação da convicção pode até não estar respaldada em dados investigativos ou comprovação científica, mas tem na percepção prática uma realidade inequívoca e luzidia, mesmo aos olhos comportamentais mais míopes. Basta lembrarmos das pessoas mais convictas que conhecemos e veremos nelas um fio condutor comum: elas, instintivamente, adicionam um componente emocional que emoldura as palavras expressas. Faça o teste!
Gostei tanto da tese do Mathias que lhe pedi permissão para abordá-la na Cereja do Bolo e, para minha alegria e satisfação, ele consentiu na hora. Prometo aprofundá-la no livro.
Beto Carvalho


