Blog do Carvalho

SÁBADO, 16 DE AGOSTO DE 2008

      Que vivemos na sociedade das aparências, isso é uma realidade!  Valorizar o parecer ser é uma constante no consciente, e inconsciente, coletivo do cidadão-padrão brasileiro. Não reconhecer, ou não querer enxergar, esse modus operandi nas relações sociais na terra brasilis é, no mínimo, mais um caso de miopia mercadológica.   

      Os símbolos dessa sociedade das aparências são muitos, basta uma breve reflexão sobre esse contexto. A roupa que vestimos, os locais que freqüentamos, os lugares para onde viajamos – ou dizemos que viajamos, as “amizades” que desfrutamos, enfim, os sinais exteriores indutores da constatação situacional são infindáveis, basta que representem a quem os percebem uma real comprovação de estar bem-sucedido.   

      Entre esses reveladores de sucesso pessoal, talvez nenhum tenha tanta força na formação de opinião quanto o automóvel que estamos dirigindo.  

        - Pô, você viu o carro que o fulano tá andando?   

        - Claro que vi! Baita carro. O cara tá bem pra caramba, hein?    

       Diálogos informais e pueris, como este, são quase tônica quando convivemos em ambientes sociais, especialmente os noturnos e etílicos, onde o avanço pela vida alheia torna-se mais permissivo e menos politicamente incorreto. Pouco importa se o sujeito em questão mora de aluguel, está cheio de carnê atrasado para pagar ou aguardando na fila do SUS um horário para uma consulta urológica; na sociedade das aparências, o que importa é a Mercedes que ele esteja andando, o seu ano de fabricação e o valor do seu IPVA.  Assim, transitar belos badalados points noturnos conduzidos por reluzentes máquinas automotoras torna-se expressão luzidia de ser alguém de sucesso.      

       Mas, e agora, com a Lei Seca em vigor, como conseguir manter esta arquitetura das aparências? Como circular por bares com BMW, Mercedes ou outro ícone automobilístico emblemático de sucesso, sem poder sorver um único copinho de Chope?   

       A resposta talvez possa ter um pouco da sua construção ancorada na transcrição de um relato que, dias desses, de orelhada, escutei advindo de uma mesa vizinha em um bar que me reunia com amigos: 

       - Tomei uma decisão esta semana: vou vender a minha Caminhonete e comprar um carro menor para o dia-a-dia. E com a diferença, vou dar uma reformada na minha casa e lá poder fazer umas "festinhas". Afinal, com esta Lei Seca, cada vez mais, lugar de “aparecer” vai ser em casa.

 

       Moral da história: na dinâmica da sociedade das aparências, as premissas permanecem as mesmas; o que mudam são as suas referências.  

 








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